Para Anderson Mendonça, que atuou em operações globais em 15 países, a IA redistribuirá tarefas, exigirá requalificação e ampliará a importância de habilidades humanas como análise crítica, liderança e visão estratégica
A Inteligência Artificial avança rapidamente dentro das empresas e promete reconfigurar o mercado de trabalho nos próximos anos. Estimativas internacionais sugerem que até 40% das funções existentes hoje poderão ser transformadas ou automatizadas até 2030, sobretudo em setores como manufatura, logística, tecnologia, finanças e atendimento. No entanto, especialistas afirmam que essa mudança não significa substituição total de profissionais, mas sim um deslocamento do foco das atividades humanas, que passam a ser mais estratégicas, criativas e decisórias.
Essa perspectiva é reforçada por Anderson Mendonça, executivo sênior com mais de 20 anos de experiência em Operações, Engenharia, Excelência Operacional e Transformação Digital, com vivência em 15 países. Com atuação em projetos na China, Índia, Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e outros países, ele afirma que empresas no mundo todo estão revendo processos, mas não eliminando a necessidade de pessoas. Ao longo da carreira, liderou programas de automação, Lean Manufacturing, TPM e gestão de alta performance em ambientes industriais globais.
“A IA muda a natureza do trabalho, mas não elimina o valor humano”, afirma. “O que desaparece não é o emprego — é o emprego sem atualização. As funções evoluem, mas a demanda por profissionais preparados cresce.”
Automatização avança, mas dentro de limites
Projeções de consultorias internacionais indicam que mais de 300 milhões de postos de trabalho no mundo podem ser modificados pela automação, mas apenas uma fração disso tende a desaparecer por completo. A maior parte das empresas utiliza a tecnologia para:
– Automatizar tarefas repetitivas,
– Reduzir falhas operacionais,
– Acelerar análise de dados,
– Melhorar previsibilidade e produtividade.
Funções como atendimento de primeiro nível, geração de relatórios, monitoramento de processos e atividades administrativas são as mais afetadas no curto prazo. Anderson reforça que essa reorganização é inevitável — e positiva.
“Vejo a IA como um acelerador. Ela realiza com precisão aquilo que não requer julgamento humano, enquanto as pessoas se dedicam ao que realmente importa”, explica. “Criatividade, liderança, negociação, ética, entendimento de contexto — isso nenhuma máquina entrega.”
Transformação deve atingir todos os níveis da empresa
Estudos de tendências indicam que, até o fim da década, o impacto será transversal: tanto áreas técnicas quanto administrativas passarão por revisão. Em operações industriais, funções como operador de linha, supervisor de produção e engenheiro de processo já começam a atuar de forma híbrida entre equipamentos e sistemas inteligentes.
Anderson, que implementou soluções automatizadas em diferentes países, confirma essa mudança.
“O operador deixa de ser apenas executor e passa a atuar como monitor e analista de sistemas. O engenheiro deixa de reagir a problemas e passa a antever falhas. Toda a lógica do trabalho muda”, afirma.
Segundo ele, não se trata de reduzir pessoas, mas de reposicioná-las. “As empresas estão redesenhando cargos, não esvaziando equipes. Profissionais que dominam tecnologia e possuem repertório crítico se tornam ainda mais valiosos.”
Requalificação será o grande divisor de águas
Se a IA transforma funções, o profissional precisará transformar-se junto. Tendências globais apontam que, nos próximos cinco anos, mais de 1 bilhão de trabalhadores devem passar por treinamentos de atualização tecnológica — seja por necessidade do mercado ou por exigência das próprias empresas.
Para Anderson, essa será a chave entre ficar obsoleto ou ganhar protagonismo.
“O risco real não é ser substituído pela IA, e sim permanecer incapaz de utilizá-la estrategicamente.”, afirma.
Ele aponta três competências que serão essenciais:
– Domínio de ferramentas digitais e sistemas de IA,
– Capacidade analítica para interpretar dados,
– Habilidades humanas avançadas, como comunicação, resolução de problemas e liderança.
Segundo o executivo, esse é o novo perfil do profissional competitivo. “Estamos entrando numa era em que pensar vale mais do que executar. A máquina executa — o profissional orienta, interpreta e decide.”
Empresas planejam estruturas híbridas: humanos + IA
As projeções internacionais apontam que cerca de 70% das companhias devem operar em modelos híbridos até 2030, combinando equipes humanas com sistemas inteligentes. Esse formato já aparece em setores como aviação, saúde, indústria automotiva e telecomunicações.
Anderson afirma que a integração entre humanos e IA é inevitável: Não existe futuro sem colaboração entre pessoas e tecnologia. O que veremos é uma fusão de habilidades — máquinas cuidando do volume e precisão; humanos cuidando da estratégia e do sentido. A IA não elimina talentos; ela elimina funções que deixaram de evoluir. Profissionais que combinam tecnologia, análise crítica e visão de negócio tornam-se essenciais. Quem evolui com a tecnologia se torna indispensável”, complementa.
Para Mendonça, o futuro do trabalho será definido por quem conseguir integrar habilidade humana e tecnologia — não por quem tentar competir com as máquinas.